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CARTA A HÉLIO DE MORAES SARMENTO
Sei que por mais que tente, que capriche, que invente, a resposta - para a qual me elegi porta-voz - não chegará nem aos pés da carta-poema que você nos enviou e, pela qual, todos nós, sem exceção, agradecemos comovidos. Entretanto, incompetência literária à parte, entrego- me à tarefa que voluntariamente me impus com certa alegria. Estava à procura de alguém para quem escrever e sua carta parece que veio de encomenda. Entendi que sua inteligência e sensibilidade irão além dos limites sintáticos dos períodos por mim elaborados e atingirão diretamente a semântica dos versos que a falta de dom impede que aflorem livremente.
Apesar de intitular-me "porta-voz", não posso falar em nome de um grupo, visto que um relacionamento é fato único e exclusivo de duas pessoas somente e, mesmo assim, muitas vezes, cada uma das duas pessoas envolvidas nesse relacionamento sentem-no e interpretam-no de maneira diferente. Ainda assim, percebo o seu modo de se relacionar com meu pai muito parecido com o meu próprio e, daí, o estímulo de lhe escrever.
Gostaria que soubesse, principalmente, que entendo e aprovo sua intenção de guardar na lembrança a imagem física e moral intocada de alguém que se ama. Eu própria teria feito o mesmo, se tivesse podido. Tinha me proposto, inclusive, a não ir vê-lo imóvel em seu leito final, mas as coisas acontecem - por mais que esperadas - de maneira tão abrupta, que acabam por nos envolver e a nos levar embolados na enxurrada dos acontecimentos.
Assisti a tudo e participei de tudo o que agora ficou na minha mente como um sonho (ou pesadelo?). Desde o momento derradeiro, porém, alguma inexplicável química psicológica fez com que os fatos dos últimos tempos ficassem envoltos em sombras, e apenas permanecessem vivas as lembranças intocadas de momentos mágicos muito parecidos com os que você, tão rica e detalhadamente, soube descrever.
Ainda estou um pouco anestesiada com sua partida e não sofro. Chego a sentir muito alívio por sabê-lo finalmente sem dores, mas começo a sentir saudades. Quando estou em sua casa, fico o tempo todo consciente de que ele não está ali. Mas, à tardinha, ponho-me a esperá-lo chegar do trabalho - como costumava fazer até um ano atrás - para iniciarmos infindáveis conversas sobre música, política e religião - nossos temas preferidos -, até ter que voltar para minha casa e vê-lo com ciúmes do meu marido que me tirava da sua companhia.
Como pai e filha, tínhamos um relacionamento melhor do que bom: muito diálogo entremeado de silêncios significativos que nós dois, ambos do tipo retraído, não sabíamos externar mas, como ninguém, sabíamos entender e sentir.
Partilhávamos de igual amor pela música, de idêntica ideologia política - que nos rendeu longos papos - e tínhamos as mesmas incertezas quanto à vida após a morte. Mesmo ele já se encontrando acamado, eu notava que, quando eu chegava, ele acabava se animando com minha tagarelice sobre os últimos acontecimentos pré-eleitorais - os quais eu lia avidamente, inclusive para deixá-lo a par e preencher seus dias tão longos naquela cama. Quanto à vida após a morte, não sei se ela existe - ele também não sabia, mas também não afirmo que não haja (1) - ele também não afirmava. De qualquer modo, espero que, se houver, ele esteja rodeado por Garoto, Vinícius, Elis, Nara, Irvin Berlin, Don Costa e toda essa gente com quem ele gostaria de ter convivido aqui (com alguns ele até conviveu!).
Sua morte não veio interromper nada entre nós. Conhecia- o tão bem, entendia-o tão completamente que, mesmo quando surgirem fatos novos, poderei conversar com ele mentalmente, porque conhecerei seus pontos de vista e suas opiniões sobre tudo. Meu pai, homem tão enigmático para a maioria das pessoas, era absolutamente transparente para mim.
Tenho ainda outro privilégio que não foi concedido a nenhuma das pessoas a quem ele deixou: meus dois filhos, que herdaram do avô, importantes características. O mais velho, além da semelhança física, tem do avô o gênio sereno e retraído, a mesma maneira silenciosa de se comunicar com o olhar, o aguçado senso crítico, a paixão pela vida noturna e a idêntica maneira de andar. O mais novo, além da mesma semelhança física, e apesar do gênio completamente diferente - é irrequieto e comunicativo - já apresenta, com tão pouca idade, a acuidade auditiva do avô, identificando com precisão impressionante as vozes de Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso e outros. Ambos completam a lacuna deixada por meu pai através de suas "azuis maneiras de olhar-me" - só para parafrasear Drummond.
Como você pode ver, a vida, afinal de contas, é mesmo eterna. Meu pai continua a viver um pouco em cada um de nós, seus filhos e netos, que continuaremos a existir em nossos filhos e netos. E, assim, a vida continua, apesar de tudo. . .
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1. Hoje tenho plena convicção da existência da vida após a morte e, somente a crença nela e nas sucessivas reencarnações - como forma de evolução do espírito - deram sentido à minha vida. (Nota da Autora)
Escrito por Tere às 05h29
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O POETA COME AMENDOIM
(Mário de Andrade)
"Brasil amado,
Não porque seja minha pátria.
Pátria é acaso de migrações...
e do pão nosso onde Deus der.
Brasil que eu amo...
Porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
o gosto dos meus descansos,
o balanço das minhas cantigas,
amores e danças.
Brasil que eu sou
porque é a minha expressão
muito engraçada,
porque é o meu sentimento
muito pachorrento.
Porque é o meu jeito
de ganhar dinheiro,
de comer e de dormir."
Escrito por Tere às 00h32
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