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Trabalho
Tenho o maior orgulho da minha profissão!
Quando era mais jovem, achava que depois dos filhos, o trabalho era o que havia de mais importante na vida e fui fundo nessa idéia. Comecei a trabalhar muito cedo, antes mesmo de terminar a faculdade, e meu cotidiano foi dificultado pela chegada do primeiro filho - com todos os cuidados de que um bebê necessita - excesso de aulas, serviço de casa e o estudo. Eu amava lidar com os alunos, ensiná-los, ajudá-los em suas dificuldades de adolescentes, colaborar com sua formação para a vida e orientar seus pais; porém, gastei toda a minha mocidade e grande parte da vida adulta trabalhando e estudando para trabalhar mais e melhor. É claro que sentia muito prazer no que fazia, mas exagerei! Eu não tinha tempo para nada, nem para mim mesma. Minha mãe vivia se queixando de que não conseguia falar comigo nem ao telefone!
Meu círculo de grandes amigos cansou de esperar nos fins-de-semana e feriados, que eu terminasse de preparar aulas, elaborar apostilas e corrigir provas. Aos poucos, foram se afastando, a vida passando - rápido demais - e eu, cega aos acontecimentos que me circundavam e completamente sem ciência do que acontecia com meus sentimentos e relacionamentos. Era muito ocupada! Não tinha tempo!
O filho cresceu, já estava com quase doze anos - começando a dar os trabalhos comuns à puberdade - e eu, perdida entre as orientações que tinha que lhe dar, os papéis de escola, os livros do curso de pós-graduação e as tarefas domésticas, demorei a perceber que ia ter o segundo filho, tão esperado!
Entre tudo o que fazia, tinha que desistir de alguma coisa para dar atenção ao neném que ia chegar - e o curso de Pós-graduação foi abandonado quando eu já ia elaborar a tese. Achei que o concluiria tempos depois. Não o concluí. O trabalho não deixou!
Quando meu pai faleceu, apesar de eu ter acompanhado de perto toda a sua agonia e ter-me revezado (fazendo o turno da noite) com minha mãe e minha irmã - cuidando dele até o fim - não tive tempo nem de chorar!
Hoje, madura, acho imprescindível ter um tempo ocioso. E não estou falando de férias! Quando em férias, temos tantos assuntos pendentes para resolver, que nem as vemos passar. Falo de um tempo ocioso a cada dia. Um momento a sós com nós mesmos para simplesmente pensar e, assim, reavaliar atitudes, rever concepções, prestar atenção em como está nosso interior e verificar se estamos sabendo lidar bem com nossas emoções.
Em decorrência desse atual "tempo ocioso" que agora me obrigo a ter, notei que muitos sentimentos se modificaram, o foco da minha atenção mudou de mira e que o que parecia tão importante, na verdade, não era tão necessário assim. Atentei para o fato de que a felicidade plena, aquela que existe, sim! e que deriva do fato de amarmos e sermos amados incondicionalmente - e para a eternidade - não aconteceu. Nem ao menos tive tempo de procurá-la.
Não chego a ser uma pessoa amarga ou arrependida por ter levado muito a sério a vida que prematuramente escolhi. Acho que fiz o certo, embora com demasiado desvario! Realizei muitas coisas, ajudei muita gente a aprender como lecionar, ministrei aulas a uma legião incontável de alunos que, por sua vez, me ensinaram bastante também, criei meus dois filhos com muito amor e desvelo e até tive momentos felizes. Enfim, acho que fiz bastante, mas terei feito todo o essencial?
Em nome de tudo o que realizei trabalhando compulsivamente, quanta coisa não deixei de fazer, de ser e de ter? Afinal, tempo é uma questão de prioridade e, sem que me desse conta, priorizei aquilo que me escravizou. As prioridades se alternam e se modificam no decorrer da vida e precisamos estar alertas a isso.
Apesar de ter sido sempre muito preocupada em não cometer injustiças, temo ter praticado desrespeitos, ao negar - sem perceber - minha atenção a muita gente que a merecia; talvez não tenha retribuído, na mesma medida, a delicadezas que recebi de pessoas sinceras; posso não ter estado atenta a pequenos detalhes que alguém que me amava disse - e que poderia ter sido mais útil do que um sermão; apavora-me pensar que possa ter sido omissa com seres humanos ou situações; e, o mais importante: não me dei conta do que acontecia dentro de mim - tudo por falta de tempo!
Não que eu seja contra o trabalho! Muito pelo contrário! Quando sem trabalhar, ficamos desatualizados, nossa criatividade trava e o tédio toma conta do nosso dia-a-dia, além de termos a deprimente sensação de inutilidade.
Defendo o trabalho com ardor! Aquele trabalho para o qual se tem talento e que, por isso mesmo, é feito com prazer, amor, dedicação, responsabilidade e até com uma certa dosagem de perfeição, mas sem a famigerada compulsão que acaba por destruir tudo o mais que existe ao redor. Hoje, estou ciente de que ela ergue um muro entre o trabalho e o mundo.
Esse "ócio" diário de que falo não tem aquele sentido pejorativo relativo à preguiça. Refiro-me a um tempo destinado à música, à poesia, a olharmos para dentro de nós mesmos, e que equivale a uma autoterapia valiosa para que ainda possamos nos voltar para coisas relevantes que tenhamos deixado de fazer, e outras, também relevantes, que tenhamos deixado de ter e de ser. Há que se ter disponibilidade para pensar, observar, sentir, expressar os sentimentos sem racionalizá-los, olhar ao redor, dar atenção às pessoas, agir, crescer e evoluir.
Acho que, na minha vida, ainda posso ter esperanças. Há tempo para conSertos ( e conCertos!).
Apesar de não saber se você, meu leitor, é mais velho ou mais jovem do que eu, fico curiosa em saber se já acordou para a realidade que acabei de expor ou se, por absoluta falta de tempo, só daqui a alguns anos, quando não for mais uma pessoa extremamente ocupada , venha a ter momentos para estar a sós.
Voltará, então, num retorno que não se dá em espaços, mas por dentro de si mesmo - no mistério do tempo que cada um leva para se reencontrar - e, ao refletir, constatará - em desespero - que já é tarde demais...
Terezinha Sarmento
Escrito por Tere às 23h04
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