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UM DEDO DE PROSA
EM CARTAZ: A NOITE
A sombra escura da noite invade a longa tarde de verão e se estabelece, continuando a abafar a paisagem.
Imagino em que camarim cósmico a noite veste sua capa preta bordada de estrelas para encenar, no palco do céu, seu magnífico show. O holofote da lua a focaliza, ora voltando-lhe a face nova; outras vezes, sua face cheia; algum tempo iluminando-a com seu sorriso de quarto crescente e, em outros espetáculos, minguando, a tornar a “performance”mais intimista. Penso em sua capa acinzentada pelas nuvens quando chove e com mais brilho nos bordados quando é inverno e tudo fica mais chique.
A noite é meu habitat. É nela que vivo e penso e, principalmente, é durante seu show que escrevo. Escrevo na noite e sob a noite, tendo, para mim, as mais belas melodias, que ela executa em microfones invisíveis. Noite é música. É perfume. A noite é sofisticada. É verdadeira porque é escura e é na escuridão da mente que se encontram nossas verdades. Ela é intelectual. Para mim, além de artista, a noite estuda e usa óculos. Entretanto, apesar de intelectual, ela não racionaliza emoções, não as reprime e nem as considera como fraqueza, ou como algo embaraçoso e de mau gosto. Emoções não a deixam desconcertada. A noite não pensa nelas: sente-as simplesmente. É toda sentimento e paixão. Sobretudo, é amor, que ela exibe sem o menor constrangimento. A noite fala de amor e do amor. Haveria motivo mais relevante para se gostar dela?Ninguém vive sem amor, ou ninguém vive bem sem amor. Por causa de um amor, existimos. Se conseguimos enfrentar nosso dia-a-dia com dignidade é por amor, e expressamos nosso amor mais verdadeiramente à noite, quando ele se consuma juntando os sentimentos constantes da alma aos sentimentos físicos, na mais perfeita plasticidade de um “ballet”clássico. É nessa união de corpo e alma que nos sentimos completos, plenos. E tudo isso acontece durante o espetáculo da noite.
Ao encerramento do show, apaga-se a luz do refletor, e a noite, majestosa, retira-se - sem bis - para seu merecido descanso. A cortina azul clara desce tomando conta do palco do céu e todas as luzes da platéia se acendem com a claridade do sol.
Escrito por Tere às 00h38
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CANTINHO DA POESIa
PORCELANA
Minha branca moça,
Minha boneca de louça,
Minha alva poesia,
Minha clara alegoria.
Teu espelho quero ser,
Em ti refletido quero estar.
Quero me transformar
Em teu entalhe
E viver contemplando
Cada detalhe.
Quero entrar em ti
E me enraizar.
De ti me contagiar,
Me enramar,
Me reconstruir.
Quero te abençoar
De tanto querer.
Quero te preencher
E te acalentar.
Quero me entornar.
Tornar minha pele
Tua porcelana,
Minha frágil dama!
Quero me derramar,
Te molhar,
Me afogar,
Te saciar.
Enfim,
Te saciar de mim.
Escrito por Tere às 00h35
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